Respeitado como potência agrícola e como fornecedor
de alimentos para o mundo, o Brasil não teria atingido esse status sem o
trabalho da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), criada em
1973. Com enormes ganhos de produtividade a partir dos anos 80, o campo
brasileiro tem sido capaz, juntamente com a indústria processadora de seus
produtos, de proporcionar uma importante receita cambial para o País e ao mesmo
tempo garantir alimentação farta e barata aos consumidores nacionais.
Desde o começo dos anos 90, quando já se
manifestavam plenamente os efeitos da modernização rural, os institutos de
pesquisa reduziram várias vezes o peso dos alimentos na composição dos índices
de preços. Comida mais barata liberou recursos do orçamento familiar para a
compra de bens de consumo duráveis e semiduráveis, contribuindo para a expansão
do mercado interno e para o fortalecimento da indústria. Essencial para a
estratégia de crescimento do Brasil, a Embrapa vem perdendo espaço, no entanto,
no mercado de inovações, com sua atuação prejudicada pela insuficiência de
recursos para empreendimentos à altura dos novos desafios.
Os problemas da Embrapa, hoje com dificuldades para
competir com as grandes multinacionais do setor de biotecnologia, foram
mostrados em reportagem do jornal Valor publicada ontem. Os mercados de sementes
de algumas das culturas mais importantes, como soja, milho e algodão, vêm sendo
há alguns anos dominados por empresas como DuPont, Syngenta, Monsanto, Bayer e
outras multinacionais, segundo a reportagem. Desde a regulamentação dos
transgênicos no Brasil, em 2005, somente 2 das 32 variedades liberadas para
cultivo no País foram produzidas pelos pesquisadores da Embrapa.
Nas comemorações dos 30 anos da empresa, em 2003,
técnicos da área, especialistas em economia agrícola e estudiosos de estratégias
do desenvolvimento discutiram, em Brasília, agendas para adaptação da Embrapa à
era da nova biotecnologia. Os festejos de três décadas de sucesso deveriam -
este foi o mote de vários pronunciamentos - marcar uma renovação da pauta de
trabalho. O ex-ministro do Planejamento João Paulo dos Reis Velloso, um dos
responsáveis pela criação da empresa e pela implantação da política de ocupação
dos cerrados do Centro-Oeste, foi especialmente enfático ao apontar os novos
desafios.
Os custos da pesquisa, porém, têm crescido muito
mais que as possibilidades financeiras da Embrapa. Segundo uma organização
americana citada na reportagem, são necessários, em média, US$ 135 milhões para
todo o processo de pesquisa e licenciamento de um único transgênico. Isso
equivale a R$ 230 milhões. O orçamento da estatal para este ano, de R$ 2,1
bilhões, é menor que os dos três anos anteriores, mesmo em valores correntes,
isto é, sem se levar em conta a inflação. Esse orçamento deve servir para todas
as despesas. A Monsanto, informa também o jornal, gasta mais de US$ 1 bilhão por
ano em pesquisa e desenvolvimento. Em reais, isso corresponde quase à verba
total da Embrapa.
Soluções financeiras novas são essenciais para o
Estado brasileiro continuar mantendo uma empresa capaz de produzir inovação
tecnológica na agropecuária. Ou o governo enfrenta essa questão ou assume,
claramente, o risco de ver uma grande instituição de pesquisa definhar.
Não há resposta pronta, porque há dificuldades
tanto para a abertura de capital quanto para a formação de parcerias com
empresas privadas. Será preciso recorrer à imaginação para resolver o problema.
A recusa de qualquer solução por motivos ideológicos será um erro de
consequências muito graves.
A resposta pode ser complicada, mas será preciso
jamais perder de vista um fato importante. O Brasil tornou-se um grande produtor
de alimentos para os mercados interno e externo porque a pesquisa contribuiu
para grandes ganhos de produtividade, adaptou culturas a novas áreas e facilitou
o desenvolvimento da produção comercial de grandes, médios e pequenos
agricultores. A ineficiência cultuada ideologicamente por alguns membros do
governo produz apenas o atraso e a pobreza.
Fonte: CNA
|
Nenhum comentário:
Postar um comentário