A fragilidade das barreiras sanitárias e os maus hábitos de pessoas que transportam espécies vegetais sem o mínimo controle sanitário fazem da Amazônia a porta de entrada para inúmeras pragas quarentenárias que, nas últimas duas décadas, vem ameaçando as produções de laranja, banana e açaí, que são as principais culturas do Amazonas.
De acordo com o engenheiro agrônomo, doutor em Entomologia e professor titular da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Néliton Marques da Silva, desde a década de 1990 os produtores rurais do Amazonas, Roraima, Pará e Amapá convivem com o drama de ter plantações inteiras dizimadas pelas pragas.
E essas pragas continuam entrando no país pela fronteira com países como a Guiana Inglesa, Suriname, Venezuela, Colômbia e Peru e ameaçando não apenas a produção rural do Amazonas, como dos estados vizinhos.
“São pragas que não são originárias do Brasil, mas entram pela fronteira com esses países por conta da fragilidade das barreiras sanitárias e o costume de transportar vegetais sem essa preocupação. O homem é o maior disseminador dessas pragas, afinal, elas não voam”, explicou Marques.
As ameaças representadas por insetos e ácaros à produção agrícola da Amazônia e alternativas para a construção de um modelo de produção sustentável na região estão entre os temas que devem ser debatidos durante os três dias do I Seminário de Entomologia e Acarologia Agrícola na Amazônia (SEAMA), que acontece entre amanhã e sexta-feira, em Manaus.
DISSEMINAÇÃO - A cigatoga negra, que dizimou plantações de banana no Amazonas na década de 1990, a mosca negra, que destruiu cultivos de laranja em todo o Estado em 2004 depois de ser introduzida no Pará, pela fronteira com o Suriname e o ácaro da falsa ferrugem, que também ataca laranjeiras, são alguns exemplos de pragas que se espalharam pela Amazônia, oriunda dos nossos vizinhos latinos, citados pelo pesquisador.
“E pesquisas identificaram uma infinidade de outras pragas na fronteira brasileira com esses países, que podem entrar em nosso país a qualquer momento, se não forem tomadas as medidas sanitárias adequadas. No mês passado, por exemplo, foi a vez do ácaro vermelho entrar no Amazonas e colocar em risco as plantações de banana, açaí, pupunha, côco e até palmeiras ornamentais”, informou.
Marques explicou que a entrada do ácaro vermelho no Brasil, que ocorreu pela fronteira de Roraima com a Guiana inglesa, passando, em seguida, ao Amazonas, preocupa os especialistas e, principalmente, os produtores rurais do Estado, uma vez que ainda não existe, no Brasil, agrotóxicos para combater essa praga.
AMEAÇA - Hoje, a produção rural não apenas dos municípios que ficam na fronteira com países latino americanos como de outras regiões da Amazônia estão ameaçados por algum tipo de praga. No Amazonas, a fronteira com a Venezuela, Colômbia e Peru e também nossos maiores produtores de laranja – Manacapuru e Rio Preto da Eva – estão em áreas de incidência de pragas, informou o pesquisador.
E as pragas mais severas que atacam as culturas do Amazonas, segundo Marques, são a mosca negra e o ácaro da falsa ferrugem. Ambas as pragas têm como principal “alvo” as plantações de laranja. “A mosca negra causou e continua causando sérios danos a produtores de laranja de Rio Preto da Eva, Presidente Figueiredo e até Manaus, mesmo alvo do ácaro da falsa ferrugem.”
PLANTAS X AGROTÓXICOS - A grande – e severa – incidência de pragas nas propriedades rurais da Amazônia e a falta de conhecimento sobre o controle delas faz com que os produtores optem pelo uso, ás vezes exagerado, de produtos químicos, como os agrotóxicos.
Segundo o professor Neliton Marques, 92% dos pequenos e médios produtores rurais do Amazonas utilizam agrotóxicos em suas plantações. Esse número se torna ainda mais preocupante se considerarmos que os pequenos e médios produtores correspondem a 95% do total, no Estado, alertou Marques.
“Com o ataque das pragas, o produtor se vê obrigado a usar os agrotóxicos, que são nocivos ao solo e ao meio ambiente, de forma geral. Mas hoje já temos pesquisas que comprovam a eficiência de plantas do bioma amazônico que podem substituir esses produtos químicos, acabando com as pragas sem afetar o solo”, disse.
O uso de plantas inseticidas no combate às pragas, como alternativa aos agrotóxicos, deve ser um dos tópicos de discussão durante os três dias do 1º SEAMA, detalhou Marques. Desde a tradicional andiroba até o exótico nim, as várias espécies de pimenta longa, o timbó e o mapatasto - plantas abundantes e de fácil acesso aos produtores do interior -, todas devem ter os benefícios discutidos no evento, para, depois, serem disseminados entre os produtores rurais.
Fonte: A Crítica
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